quarta-feira, 8 de março de 2017

Não quero flores...

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Não quero flores no Dia da Mulher

Por Laís Montagnana do DCM - No dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica em Nova Iorque fizeram uma grande greve por melhores condições de trabalho, porque elas tinham uma jornada de 16 horas, ganhavam um terço do salário dos homens e não tinham nenhuma condição digna. Como lidaram com essas mulheres? Trancando-as dentro da fábrica e colocando fogo lá dentro. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas por reivindicar melhores condições de trabalho. Só em 1975 a ONU reconheceu essa data como o “Dia Internacional da Mulher”.

A gente ganha flores, escuta “parabéns” (muitas vezes sem nem a pessoa saber pelo o que está te parabenizando), recebe bombom, batom, kit de manicure cor-de-rosa e itens de mulherzinha pra você cuidar da sua aparência, manter-se bonita e continuar cumprindo sua função social de embelezar o mundo. Tem até loja de eletrodoméstico dando um super desconto em máquina de lavar pra você “ter mais tempo livre”, afinal de contas, não passamos de um bibelô com funções domésticas.

Feliz dia da mulher pra quem? A mulher continua ganhando um salário menor que o homem: recentemente a atriz Patricia Arquette aproveitou os agradecimentos de seu Oscar para pedir por salários igualitários e direitos iguais para todos, uma situação em Hollywood que reflete o que acontece no mundo todo. A mulher continua sendo violentada: o Brasil, mesmo depois da Lei Maria da Penha, ainda ocupa o 7º lugar no ranking mundial de mortes de mulheres vítimas de violência. A mulher continua sendo estuprada: dados do 8º Anuário Nacional de Segurança Pública mostram que o número de mulheres que sofreram violência sexual pode ter atingido 143 mil casos ano passado. A mulher continua sendo assediada: 26% dos entrevistados pelo SIPS do IPEA em 2013 concordam que mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas.

Sofremos diversos tipos de abusos por conta de sermos mulheres. E essa situação se agrava quanto mais escuro for o tom da sua pele e menor for a sua renda. Nos é limada a liberdade de ir e vir, já que não nos sentimos seguras para andar na rua à noite sozinha pelo simples fato de sermos mulheres. Não somos donas do nosso próprio corpo, não disfrutamos da mesma liberdade sexual que o homem: somos culpadas por fazer sexo, a responsabilidade de uma gravidez cai sempre sobre as nossas costas, mas o direito de escolha de ter esse filho ou não não é nosso. Somos escravas de uma dupla jornada de trabalho, a maioria das mulheres continua trabalhando dentro e fora de casa. Todo mundo quer salvar o mundo, mas ninguém quer ajudar a mãe a lavar a louça.

Temos a nossa autoestima reduzida por uma cultura misógina que apenas lucra com isso pregando inseguranças. Nossos corpos são sexualizados na publicidade e estereótipos falsos são criados a fim de se vender mais. Somos oprimidas por um padrão estético que nos vende produtos para alisar o cabelo, arrancar nossos pêlos, enxugar nosso corpo, esconder “imperfeições” e ficar jovem pra sempre. Somos bombardeadas por um padrão de beleza ilusório que prega a perfeição e que faz mulheres se odiarem na frente do espelho, todos os dias.

Nos dizem que não é cantada, é elogio e que você não pode reclamar, tem que agradecer. Temos que ver em rede nacional o Alexandre Frota reencenando um estupro e não podemos ficar chocadas ou revoltadas porque não passou de uma brincadeirinha, afinal, cadê seu senso de humor? Se você desenvolve um mínimo de senso crítico pra questionar essa cultura machista ainda tem que ouvir que virou uma feminazi esquerdopata abortista entre outros absurdos.

Você é objetificada. Não querem ouvir o que você, mulher, tem a dizer e nem do que é capaz. Tudo o que interessa é o tamanho do seu decote. Quando um cara novo é contratado na firma a primeira pergunta é: “Ele é bom?”, mas, se for mulher, o questionamento muda para: “Ela é gata?”

É por isso que me pergunto: o que termos para celebrar? É triste ver um símbolo de resistência, como esse dia tão importante, se transformar em data comercial e calendário de varejo. É lamentável acompanhar essa distorção histórica. Querem que a gente se esqueça da luta, do que realmente importa e aceite uma rosa.

Nesse dia 8 de março eu não quero flores, eu quero o seu respeito o ano inteiro. Eu não quero perfume, eu clamo por igualdade, eu não quero ser estereotipada, eu resuso suas rosas e o rótulo de sexo frágil. Nesse dia 8 de março guarde os bombons, empodere uma mulher.
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Laís Montagnana - Nem puta, nem santa. Amante de bons drinks, bons discos, noites quentes e mesas de bar na calçada. Escritora, feminista e encontrável em www.deliriosemcomprimidos.com e @lmontag